28.07.2008

Dia de D, de Desilusão

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Pensamento do dia:

Será que um dia vou ser realmente boa nalguma coisa?

 

Momento X:

Chegar a casa depois de uma grande decepção comigo mesma e ter quem me console.

 

 

Ler para Pensar:

O meu 1º exame de menina

 

 

 

 

 

Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..."
(eu sabia de cor toda a corografia)
O Senhor Inspector deu-me a nota mais alta em Geografia e disse gravemente:

- "Continua. Hás-de ser gente..."

 

 


"Ângulo recto, agudo, cateto, hipotenusa..."
(já manchara de giz a minha blusa,
mas respondia a tudo e a professora sorria
enquanto eu papagueava a Geometria).

"...D. Sancho, o Povoador... D. Dinis, o Lavrador..."
(Tinha então boa memória, sabia as datas da História)
1580, 1640, 1143, em Arcos de Valdevez..."
("Muito bem, sim senhor! A pequena é simpática")

 

 

E depois, em voz alta, o senhor Inspector:
_"Vamos lá à Gramática."
_"...E, nem, nem só, mas também...conjunções copulativas".

(Eu pensava na alegria que ia dar à minha mãe,
nas frases admirativas da velha D. Maria,
a minha primeira mestra:
-Tão novinha e ficou "bem"!
-e esta suavíssima orquestra acompanhava em surdina
o meu primeiro exame de menina
aplicada, orgulhosa, inteligente...)

-"Vá ao quadro, menina."
Docilmente, fiz os problemas,
dividi fracções,
disse as regras das quatro operações
e finalmente,
o senhor Inspector felicitou-me,
quis saber o meu nome
e declarou-me que ficara "distinta",
sem favor.

Ah! Que esplendor!
Que alegria total e sem mistura!
Que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol, e a claridade não me cegou,
julguei-a quase escura...
As estrelas, fitei-as como iguais.
Melhor, como rivais...
E a Humanidade pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)
Pouco depois, em casa,
a testa em fogo,
o olhar em brasa,
gritei num desafio à terra, ao céu, ao mar, ao rio:
_"Ó mãe, eu já sei tudo!"


No seu olhar tranquilo de veludo,
naquele olhar profundo,
que era todo o meu mundo,
passou uma ironia tão velada,
uma ironia tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro cada dia:
_"Ó mãe, eu não sei nada!..."

 

 

 

 

Fernanda de Castro 

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